Complicações e sinais leves, na dengue, intrigam especialistas

23 de março de 2015


Em quatro décadas de doença, decifrar detalhes ainda é desafio

Do JC Online

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O filho de Andrea, quando bebê, teve brusca baixa de temperatura por causa da dengue

Guga Matos/JC Online

Enquanto uma vacina contra a dengue torna-se cada vez mais possível, um dilema está longe do fim. O doente corre mais risco no primeiro contato com o vírus ou nas infecções repetidas? Especialistas acreditam que nem tão cedo o enigma estará elucidado. A segunda reportagem da série iniciada na semana passada aponta as certezas e incertezas em torno da virose que ainda vai exigir muito dos estudos moleculares, clínicos e da epidemiologia.

Na atual epidemia que avança sobre o Recife, com 574% de aumento nos casos suspeitos registrados, a dengue tem se mostrado versátil como nunca, ao ponto de ser confundida com a nova febre chicungunha e velhas viroses de transmissão respiratória. Gente picada pelo Aedes aegypti já recebeu diagnóstico até de uma tal “sub-rubéola”, para desespero dos epidemiologistas.

Uns quase não sentem febre, ficam com manchas vermelhas e coceira no corpo já no terceiro dia. Outros se queixam de dores mais fortes nas articulações. Reações neurológicas e até garganta irritada têm sido anotadas por médicos. Mudar de apresentação não é o único mistério da arbovirose (transmitida por mosquito). Até agora, mesmo na quarta década de adoecimentos constantes no Brasil e muitos séculos no mundo, ainda se tem dúvida sobre o que define seu curso quase fulminante em parte dos casos.

“Quanto mais se aprende parece que menos se sabe”, desabafa o médico e cientista Ernesto Marques, da Fundação Oswaldo Cruz no Recife e da Universidade de Pittsburgo (EUA). “O que era certeza absoluta sobre os mecanismos que levavam à doença grave já nos deixa dúvidas. Durante 45 anos apostou-se numa teoria que estudos mais recentes não confirmaram, a de que a segunda infecção teria mais chance de complicar”, afirma. Há quatro vírus circulando.

O médico Demócrito Miranda Filho, professor de Infectologia da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE), confessa não entender a grande frequência de manifestações leves, mesmo em pessoas que já adoeceram mais de uma vez. Lembra que a literatura científica apontava a dengue grave associada à cepa do vírus ou a uma segunda exposição. Virose considerada reemergente a partir da década de 1980 no Brasil (pode ter circulado antes) exigiu nas duas últimas décadas uma atualização gradual dos profissionais. Talvez ainda seja cedo para saber tudo sobre ela. “Existem fatores genéticos do hospedeiro, do vírus em si, por isso a vigilância e a identificação de cepas são importantes, algumas parecem provocar mais adoecimento na sociedade que outras, e a individualidade da pessoa também pode definir se ela ficará curada facilmente ou terá complicações” lista Ernesto Marques. Para o pesquisador, é preciso avançar no estudo molecular para compreender melhor a apresentação clínica da dengue.

A virologista Marli Tenório, também da Fiocruz, fez sequenciamento genético de vírus isolados de pernambucanos e estudou o comportamento da doença entre 1995 e 2006. “Nas epidemias passadas, como a de 1995 e 1996, causadas pelo dengue 1, muitos casos confirmados não apresentavam febre e 62% tinham manchas vermelhas na pele.”, cita. E por que os sintomas mudam ao longo do tempo? “Pode ter a ver com o sorotipo e ou genótipo do vírus circulante”, defende. Ela mesma teve dengue quase sem sinais. >“Os sinais e sintomas são inúmeros, alguns mais comuns como a dor nos olhos, dor de cabeça, dores musculares. Felizmente, nem todos ocorrem no mesmo indivíduo na mesma infecção. A febre amarela também pode ser branda e a rubéola, na gestante, pode causar má-formação congênita”, acrescenta.

O QUARTO DIA

Na dúvida quanto ao curso da doença, é melhor ficar atento às tendências que os especialistas apontam. Diante dos sinais suspeitos, mantenha-se hidratado ao máximo. Se não conseguir beber líquidos, busque ajuda num serviço de saúde, pois precisará de soro injetável. Outro ponto fundamental são as complicações que podem surgir no quarto dia.

“Quem está com dengue deve voltar ao posto de saúde, UPA ou hospital para medir as plaquetas, mesmo que esteja se sentindo bem. Nessa fase, elas podem cair muito sem dar sinais e o paciente iniciar um quadro crítico, com risco de morte”, adverte Demétrio Montenegro, 41 anos, chefe do Isolamento de Doenças Infecciosas do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife.

Quando estava começando a carreira na infectologia teve a doença e estudou os óbitos registrados. Descobriu que as pessoas nem sempre morriam de hemorragias, mas de extravasamento de líquido no interior do corpo, uma complicação que pode ser sinalizada na queda de plaquetas e outras taxas.

O conhecimento mais detalhado em torno da doença fez o Ministério da Saúde abandonar a expressão dengue hemorrágica e adotar dengue grave, que inclui os casos com sangramento.

A pediatra Andrea Melo foi surpreendida em casa com a reação do filho que começava uma virose. O garoto, com menos de um ano, na época, apresentou febre e teve uma queda brusca de temperatura. A hipotermia, causada pelo extravasamento de líquido no interior do organismo, significava agravamento da dengue, naquele momento nem diagnosticada. A infectologista do isolamento pediátrico do Oswaldo Cruz Regina Coeli chama a atenção especial para bebês, que não conseguem descrever o que sentem. “Precisam ser monitorados o tempo todo pelos pais e e de reavaliação dos médicos”, ensina.

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