Contra o Zika, Brasil terá ajuda de equipe que combateu Ebola

7 de janeiro de 2016


Cientistas vão ajudar brasileiros a isolar e pesquisar o vírus

aedes dengue zika Foto Rafael Neddermeyer Fotos Públicas

Do Diário do Poder

Os primeiros quatro integrantes de uma equipe de cinco pesquisadores do Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, que participaram ativamente do combate à epidemia de ebola na África, desembarcaram ontem em São Paulo para ajudar cientistas brasileiros a lidar com o zika vírus. O chefe da equipe, Amadou Alpha Sall, um renomado especialista em pesquisa e controle de epidemias virais, deve chegar amanhã.

Eles vão se juntar à rede de pesquisadores paulistas que foi formada em caráter emergencial para responder à epidemia de zika, que vem se alastrando pelo país e é apontada como responsável pelo aumento explosivo no número de casos de microcefalia em bebês. A rede é coordenada pelo pesquisador Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo, que já colabora com o instituto de Dakar há vários anos e recentemente publicou um artigo científico com Sall, mostrando adaptações genéticas do vírus zika para infectar humanos.

A previsão é que a equipe do Senegal passe pelo menos uma semana no ICB, trocando informações e treinando pesquisadores brasileiros em técnicas de isolamento e cultivo do vírus. “Os dias que o vírus zika era invisível estão contados”, disse Zanotto.

A grande dificuldade em responder à epidemia de zika é que muito pouco se sabe sobre o vírus, que praticamente não existia no país até o ano passado. Para montar uma estratégia eficiente de combate, os cientistas precisam entender melhor como ele funciona, seu ciclo na natureza, como ele interage com o mosquito Aedes aegypti e como ele se comporta dentro do organismo humano. A maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas, e não se sabe ainda como o vírus interfere no desenvolvimento do sistema nervoso dos fetos, levando à microcefalia. Sem esse conhecimento básico, não há como planejar qualquer tipo de intervenção — além da precaução básica de se evitar contato com o mosquito.

Uma das prioridades é acelerar o desenvolvimento de testes rápidos de diagnóstico, que permitam detectar e rastrear a disseminação do vírus com mais eficiência. Os sintomas do zika (quando aparecem) são muito semelhantes aos da dengue e da febre chikungunya, o que dificulta o diagnóstico e o monitoramento da doença.

O Instituto Pasteur de Dakar é um centro de referência em pesquisas de arboviroses, como são chamadas as doenças virais transmitidas por picadas de insetos (como dengue, zika e chikingunya, transmitidas pelo Aedes aegypti), e vírus causadores de febre hemorrágica (como o ebola). O laboratório trabalha em parceria com a Organização Mundial da Saúde e foi o primeiro a responder à epidemia de ebola que começou na Guinea em 2014. Sall foi homenageado pela Unesco no ano passado por seu trabalho.

O diretor do ICB, Luís Carlos de Souza Ferreira, lidera um esforço para instalar uma unidade do Instituto Pasteur na USP. “Nesse sentido, a vinda de pesquisadores do Senegal a São Paulo representa uma etapa importante na parceria científica entre o Instituto Pasteur e o Brasil, na qual participam a USP e a Fiocruz”, disse Ferreira ao Estado.

A vinda da equipe de Senegal para o Brasil, segundo o ICB, integra um acordo de cooperação assinado entre a USP, a Rede Internacional do Instituto Pasteur (RIIP) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp). Uma coletiva de imprensa com Zanotto e Sall será realizada sexta-feira no ICB. (AE)

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