Vacina contra zika pode ficar pronta para testes em um ano, diz ministro

11/02/201615h:40 por

Início da aplicação em grande escala, porém, deve levar até três anos.
Imunizante está sendo desenvolvido em parceria com cientistas dos EUA.

Mateus Rodrigues

Do G1 DF

marcelo_castro (1)

O ministro da Saúde, Marcelo Castro, anunciou nesta quinta-feira (11) uma parceria firmada entre o Instituto Evandro Chagas, sediado em Belém, e a Universidade do Texas, nos Estados Unidos, para desenvolver uma vacina contra o vírus da zika. Segundo ele, a experiência das instituições pode encurtar o prazo de formulação do produto, que poderá ser desenvolvido em um ano e depois testado em mais dois anos.

“Como o instituto e a universidade têm o mesmo viés, fizemos essa parceria para desenvolver a vacina. Sabemos que é demorada, mas há um grande otimismo de que poderemos desenvolver a vacina em um tempo menor que o previsto. Aproximadamente em um ano, podemos ter essa vacina desenvolvida”, afirmou Castro. “Seria um ano para desenvolver e dois anos para testar o produto”, acrescentou.

(Correção: ao ser publicada, essa reportagem afirmou erroneamente que a vacina estaria pronta em um ano, segundo declaração do ministro da Saúde. Depois Castro corrigiu sua fala, dizendo que nesse prazo ela estará pronta para testes. A reportagem foi corrigida às 12h45).

Seriam necessários mais dois anos para testar a vacina em animais e humanos, antes de começar a aplicar o imunizante em grande escala. A parceria prevê investimento de US$ 1,9 milhão pelo governo brasileiro, nos próximos cinco anos. O valor do aporte a ser feito pelos EUA não foi informado.

O lado brasileiro do desenvolvimento será coordenado pelo pesquisador Pedro Vasconcelos, do Evandro Chagas. Embora o cronograma de trabalho oficial preveja prazo de dois anos para a vacina, ele também diz que será possível encurtar o tempo pela metade.

“Essa vacina vai ser feita da seguinte maneira: após o sequenciamento do vírus zika, que já está acontecendo, a parte que é responsável pelo desenvolvimento de anticorpos no hospedeiro será incorporada a uma molécula sintética, que vai estimular o organismo humano”.

Camundongos e macacos
Segundo Vasconcelos, grande parte da pesquisa será desenvolvida em Galveston, no Texas. Os testes pré-clínicos, que antecedem a aplicação em humanos, devem ser feitos simultaneamente em Galveston, em camundongos, e em Ananindeua, na região metropolitana de Belém, em macacos.

Geralmente, os testes nas duas espécies são feitos em separado. “Essa simultaneidade vai acelerar o procedimento em seis a oito meses. Por isso, acreditamos que a vacina poderá estar disponível para teste em humanos em doze meses. Um pouco mais, um pouco menos”, diz o pesquisador.

O prazo para desenvolvimento não significa que a vacina estará disponível na rede de saúde daqui a um ano. Além dos testes em animais, o produto precisa ser testado em humanos, enviado para laboratórios de outras partes do mundo e registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por exemplo.

“O que está previsto no cronograma é dois anos, mas nossos cientistas estão tão otimistas que estão prevendo um prazo inferior. Aí, vai ter que fazer testes em animais, em humanos, e isso demora. A vacina da dengue, por exemplo, está na fase III e ainda vai levar cerca de um ano”, diz Castro.

No melhor dos cenários, Castro diz que a vacina poderia estar disponível à população dentro de três anos. “O caso é tão urgente que estamos pedindo a presença da FDA [órgão americano de vigilância sanitária] e da Anvisa para eliminar burocracias. Não queremos pular etapas, mas agilizar etapas”, diz.

Críticas
O anúncio da parceria com os EUA ocorreu numa semana em que cientistas estrangeiros vinham criticando o Brasil pela dificuldade de acesso a amostras do vírus da zika. Problemas burocráticos e desinteresse por colaborações estariam desestimulando cientistas brasileiros a enviar amostras para fora.

Castro não quis criar polêmica sobre as críticas. “Elas são livres”, afirmou.

O ministro também afirmou na entrevista coletiva que as notificações obrigatórias de zika nos laboratórios centrais, que seriam anunciadas nesta semana, devem ser adiadas. O atraso ocorre porque a licitação dos kits feitos pela Biomanguinhos demorou, e os materiais ainda estão sendo enviados.

Relação ‘sem dúvidas’
O ministro da Saúde afirmou nesta quinta que o governo não tem mais dúvidas sobre a relação existente entre o vírus da zika e o aumento nos casos de microcefalia. O que os pesquisadores investigam agora, segundo ele, é a existência de outros fatores “colaterais”.

“Não há a menor dúvida de que o fator determinante da epidemia de microcefalia que temos no Brasil é a epidemia de zika. O que nós vamos investigar agora é se há outros fatores adicionais, outras influências. Nós não temos hipóteses, tudo ainda vai ser investigado”, disse.

Castro reafirmou que as estratégias de combate ao vírus e ao mosquito Aedes aegypti são uma prioridade do governo e que, por causa disso, têm recursos garantidos no orçamento da União.

“Este é o maior problema que o Brasil tem. Para o maior problema do país, não podem faltar recursos e a presidente Dilma tem sido enfática ao dizer que isso [a falta de dinheiro] não será um problema. Os recursos não são vultosos, não é grande quantidade para a dimensão do problema”, declarou.